A planície de inundação do rio Araguaia é uma das mais importantes planícies alagáveis brasileiras, apresentando uma área de drenagem de aproximadamente 386.478 km2, localizada inteiramente em território nacional, e localizada bem no Coração do Brasil (Figura 1).

 

Estando próxima ao Pantanal na sua porção sul, a bacia hidrográfica do rio Araguaia está inserida praticamente dentro do bioma Cerrado, mas também apresenta uma pequena inserção na Amazônia em sua porção norte. Portanto, a bacia do Araguaia funciona como um importante e extenso corredor ecológico para várias espécies, inclusive onças pintadas, desde o Pantanal até o bioma amazônico (Figura 1).

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Figura 1. Localização espacial da bacia hidrográfica do rio Arguaia e biomas brasileiros.

A precipitação total anual média na bacia é de 1.751 mm e a vazão média do rio Araguaia é de 5.508 m3/s (Aquino et al., 2005). Sua extensão é de 2.110 km e pode ser dividida em três unidades: Alto, Médio e Baixo Araguaia (Latrubesse & Stevaux, 2002) (Figura 2).

 

Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger, o clima regional é Aw (tropical de verão úmido e período de estiagem no inverno) e, em geral, os valores máximos de vazão ocorrem entre os meses de novembro e abril (Latrubesse & Stevaux, 2002).

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Figura 2. Divisões da bacia hidrográfica do rio Araguaia.

Diferentemente do rio Tocantins, seu “meio irmão”, que juntos formam a grande bacia hidrográfica Tocantins-Araguaia, atualmente não existe nenhuma barragem do canal central do rio Araguaia. Portanto, a dinâmica espaço-temporal do pulso de inundação do rio Araguaia continua funcionando de forma natural; condição extremamente rara para um rio com tamanha extensão territorial e vazão de água.

 

De tal forma, o rio Araguaia permanece como um “bolsão” de condições relativamente prístinas no Cerrado brasileiro, possibilitando ainda a ocorrência de processos migratórios e reprodutivos de suas comunidades de peixes e de vários outros grupos biológicos, tais como mamíferos terrestres e aquáticos (botos). Por outro lado e com intuito de exemplificação, o rio Tocantins apresenta diversas barragens hidroenergéticas, modificando aspectos da biodiversidade, ecossistemas e sócio-cultural ao longo do rio. Nesse rio estão instaladas as barragens de Serra da Mesa, Cana Brava, São Salvador, Peixe Angical, Lajeado, Estreito e Tucuruí.

 

Com a expansão da fronteira agrícola em direção ao Centro Oeste e Centro Norte brasileiro, um intenso e crescente processo de degradação ambiental vem ocorrendo nesta região, ao mesmo tempo em que a planície de inundação do rio Araguaia sofre um ativo processo de antropização provocado por processos de desmatamento, mineração, erosão, sedimentação do canal e da planície aluvial (Latrubesse & Stevaux, 2002; Morais, 2002; Latrubesse et al., 2007; Latrubesse et al., 2009; Coe et al., 2011). Por exemplo, estima-se que mais de 50% da área da bacia está degradada pelas ações antrópicas (Latrubesse et al., 2019). Mesmo assim, essa bacia hidrográfica é considerada estratégica para o crescimento econômico nacional, pois ainda apresenta diversas potencialidades de aberturas de novas áreas para atividades pecuárias, agrícolas, mineração, geração hidrelétrica, pesca, turismo, aquicultura e de fonte de retirada de água para abastecimento de sistemas de irrigação agrícolas (ANA, 2009).

 

Por outro lado, apesar da intensa e crescente degradação ambiental nos últimos anos em detrimento da sua importância social, política e ambiental, estudos científicos nesta planície são escassos. Por exemplo, buscas por artigos científicos publicados entre os anos de 1947 a 2020 sobre as principais planícies alagáveis brasileiras, realizadas em julho de 2020 na plataforma Thomson ISI Web of Science, retornaram os seguintes resultados: Amazonas com 9.513 artigos, Paraná com 3.883 artigos, Paraguai com 713 artigos e Araguaia com 306 artigos (Figura 3). Além disso, a dinâmica anual do número de artigos publicados na bacia do Araguaia segue uma tendência de estabilidade em número baixo se comparada com as demais (Figura 3).

 

Portanto, o rio Araguaia pode ser também caracterizado como a mais importante e negligenciada planície de inundação do Cerrado brasileiro.

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A

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B

Figura 3. Número de artigos científicos publicados (A) e variação temporal do número de artigos científicos publicados (B)  localizados no Thomson ISI Web of Science entre os anos de 1947 a 2020.

Infelizmente, esse descaso político, social e científico promove a perda da rica e valorosa biodiversidade da planície de inundação do rio Araguaia. E, no mais, há de ser considerado que devido ao ínfimo número de estudos na região, estamos perdendo uma porção considerável de biodiversidade nunca antes registrada pela comunidade científica (ou seja, perda de espécies que nunca serão nem ao menos catalogadas).

 

Como um indicativo de sua elevada diversidade biológica, em um recorte das bacias hidrográficas dentro do Bioma Cerrado, Latrubesse et al (2019) estimam que a bacia do rio Araguaia é a que apresenta a maior riqueza de espécies de peixes (totalizando 416 espécies registradas), seguidas pela bacia do rio Tocantins (com 336 espécies registradas).

No mais, vale ainda ressaltar a importância econômica, social, cultural e turística desse rio para as populações dos estados de Goiás, Mato Grosso, Pará e Tocantins. Conforme ditado popular de Goiás, o "Araguaia é a praia dos goianos"! Sem sombra de dúvidas, diferentes gerações aprenderam a amar e respeitar o rio Araguaia. Tal paixão inicia na infância e não se finaliza na velhice!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (Brasil). Plano Nacional de Segurança Hídrica / Agência Nacional de Águas. – Brasília : ANA, 2019. ISBN: 978‐85‐8210‐059‐2

AQUINO, S., STEVAUX J.C. & LATRUBESSE E.M., 2005. Regime hidrológico e aspectos do comportamento morfohidráulico do Rio Araguaia, Revista Brasileira de Geomorfologia 2: 29-41.

COE, M. T., Latrubesse, E. M., Ferreira, M. E., & Amsler, M. L. (2011). The effects of deforestation and climate variability on the streamflow of the Araguaia River, Brazil. Biogeochemistry, 105(1-3), 119-131.

LATRUBESSE, E. M. et al. The geomorphologic response of a large pristine alluvial river to tremendous deforestation in the South American tropics: The case of the Araguaia River. Geomorphology, [S. l.], v. 113, n. 3–4, p. 239–252, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.geomorph.2009.03.014

LATRUBESSE, E. M.& J. C. STEVAUX, 2002. Geomorphology and environmental aspects of the Araguaia fluvial basin, Brazil, Zeitschrift für Geomorphologie N. F. 129: 109-127.

LATRUBESSE, E. M., & STEVAUX, J. C. (2007). CARACTERÍSTICAS FÍSICO-BIÓTICAS E PROBLEMAS AMBIENTAIS ASSOCIADOS À PLANÍCIE ALUVIAL DO RIO ARAGUAIA, BRASIL CENTRAL. Revista Geociências-UNG-Ser, 5(1), 65-73.

LATRUBESSE, E. M., ARIMA, E., FERREIRA, M. E., NOGUEIRA, S. H., WITTMANN, F., DIAS, M. S., ... & BAYER, M. (2019). Fostering water resource governance and conservation in the Brazilian Cerrado biome. Conservation Science and Practice, 1(9), e77.

MORAIS, R. P. D., 2002. Mudanças históricas na morfologia do canal do rio Araguaia no trecho entre a cidade de Barra do Garças (MT) e a foz do rio Cristalino na Ilha do Bananal no período entre as décadas de 60 e 90. Universidade Federal de Goiás, Mestrado em Geografia.